Eu sempre me autodeclarei parda. Desde criança, e não sei explicar por quê. Ninguém sentou comigo para me ensinar a categoria, ela era simplesmente a palavra que eu usava quando alguém perguntava. O que eu sei explicar é o que veio depois.

Enquanto meu cabelo esteve alisado, a questão racial apareceu poucas vezes na minha vida. Depois da transição capilar, o mundo passou a me ler de outro jeito e, pela primeira vez, me senti de fato racializada. Foi aí que comecei a questionar a minha própria autodeclaração. Essa dúvida durou anos e é dela que nasce este texto sobre colorismo no Brasil, identidade parda e autodeclaração racial.

Aviso logo: aqui você não vai encontrar uma resposta pronta. Autodeclaração racial no Brasil não funciona com verdades absolutas, do tipo certo e errado. O que eu tenho é a minha experiência, o que estudei desde então e o material de um treinamento que dei ao comitê de Diversidade, Equidade e Inclusão da empresa onde eu trabalhava. Escrevo como alguém que ainda está em movimento: hoje me declaro parda com muito mais segurança do que antes, e quero explicar por quê.

O que é colorismo e como funciona o racismo de marca no Brasil?

Colorismo é a diferença de tratamento dentro de um mesmo grupo racial conforme o tom de pele e os traços fenotípicos. A escritora norte-americana Alice Walker usou o termo em 1983 para descrever como pessoas negras de pele mais clara e de pele mais escura viviam o racismo de formas diferentes. Colorismo não substitui o conceito de racismo. Ele descreve como o racismo é vivido.

No Brasil, essa lógica tem contornos próprios. Na década de 1950, o sociólogo Oracy Nogueira separou o preconceito racial de origem, mais presente nos Estados Unidos, do preconceito racial de marca, que ele identificou no Brasil. No primeiro, o que pesa é a ascendência. No segundo, pesa a aparência: no Brasil, o fenótipo é o que importa, e não quem são os seus pais. Por isso a classificação racial do dia a dia aqui depende da cor da pele, do cabelo, do nariz, da boca e de outros traços. Uma pessoa pode ter ancestralidade negra e nunca ser lida como negra. Outra pode ser lida como negra sem saber de onde vem cada avó. O sociólogo Edward Telles descreve esse sistema como um contínuo de cores, com muitas categorias intermediárias, e não como uma divisão binária. Em texto publicado no Geledés, Flávia Rios descreve o colorismo como um discurso sobre hierarquizações baseadas na cor, com destaque para as relações entre pretos e pardos no Brasil.

Raça é um conceito social que muda de país para país

Não existe base biológica para dividir a espécie humana em raças. Raça é uma construção social, e por isso muda conforme a sociedade e a época. Uma mesma pessoa pode ser lida como negra no Brasil e como latina nos Estados Unidos. Nos EUA, durante boa parte da história, pessoas de pele clara com ascendência negra eram classificadas como negras, pela chamada regra de uma gota (one-drop rule). No Brasil aconteceu o contrário: quanto mais miscigenação, mais categorias intermediárias surgiram, e “pardo” é a mais conhecida delas.

Essas categorias têm história. A abolição veio sem reforma agrária, sem escolarização e com incentivo à imigração europeia. O projeto de nação apostou no branqueamento, a ideia de que a mistura e a imigração fariam a população “embranquecer” com o tempo. Lilia Schwarcz mostra em O Espetáculo das Raças como cientistas da época sustentavam isso. Em 1911, no Congresso Universal das Raças, João Batista de Lacerda previu que em cerca de cem anos a população negra brasileira praticamente teria desaparecido. Junto veio o mito da democracia racial, a narrativa de que, por sermos miscigenados, todos convivem em harmonia. Ela dificultou por décadas o reconhecimento das desigualdades raciais, e autores como Florestan Fernandes e Abdias do Nascimento se dedicaram a desmontar essa narrativa.

“Se a categoria muda com o tempo e com o lugar, exigir que ela tenha uma única definição correta é pedir mais do que o próprio conceito consegue entregar.”

A transição capilar mudou a forma como o mundo me lê

O cabelo foi a parte que mais mexeu com a minha relação com a raça. Com ele alisado, a pergunta sobre a minha cor quase não aparecia. Com o cabelo cacheado, isso mudou. Conto o processo da transição no meu guia completo de transição capilar. O que este texto acrescenta é o outro lado da história: o que acontece com a identidade quando a leitura que as pessoas fazem de você muda porque o seu cabelo mudou.

Foi aí que comecei a estudar e a me envolver com a causa racial. No início desse envolvimento, cheguei a pensar que o certo seria me declarar preta. Não durou muito. Muita gente negou essa declaração, e doeu. Do mesmo jeito que muita gente nega, até hoje, a minha declaração como parda. Já fui chamada de amarela, preta, branca e parda, e também de “cor de burro fugido”, papelão e encardida. Cada pessoa que me lia tinha uma resposta diferente para a mesma pergunta. Hoje sei que sou parda, independentemente de como me leem, e isso não muda porque alguém discorda.

Pardo é negro? Por que a identidade parda está em disputa

“Pardo” é uma categoria de origem colonial que mudou ao longo dos censos desde 1872 e hoje reúne pessoas de origens muito diferentes: afrodescendentes, indígenas, miscigenados e outras combinações. No Censo 2022 do IBGE, 45,3% da população se declarou parda, 43,5% branca e 10,2% preta. Foi a primeira vez, desde o primeiro censo de 1872, que a população parda superou a branca. Esses números medem autodeclaração de cor ou raça, não ancestralidade genética.

Existe uma definição política e estatística de negro como a soma de pretos e pardos. O Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010) a adota. Ela se apoia no fato de que pretos e pardos têm indicadores sociais parecidos, como renda, educação e acesso a oportunidades, e foi articulada principalmente pelo Movimento Negro Unificado, fundado em 1978. Antes disso, parte do próprio movimento via “pardo” como uma forma de diluir a identidade negra. Essa definição tem finalidade política e estatística, e não elimina o debate sobre a identidade de cada pessoa.

Esse debate aparece nos números. Em pesquisa do Datafolha de novembro de 2024, 60% das pessoas pardas disseram não se considerar negras e 40% disseram que sim. Entre as pessoas pretas, 96% se consideram negras. Eliane Costa e Lia Vainer Schucman descrevem a identidade parda como ambígua, muitas vezes confusa, difusa, negada e afirmada, e lembram que o Movimento Negro trabalhou para transformar a declaração como parda, antes vista como negação, em afirmação de identidade negra. Ao estudar o tema, vi pelo menos três leituras que convivem:

  • Pardo como identidade negra: pessoas pardas fazem parte da população negra. É a leitura que aparece em expressões como pardo-negro.
  • Pardo como identidade própria: pessoas pardas têm uma identidade distinta, que não é branca nem preta.
  • Pardo e ancestralidade indígena: muitas pessoas pardas têm ancestralidade indígena invisibilizada. Estados do Norte, como o Amazonas, têm alta proporção de pessoas pardas, e isso não quer dizer automaticamente que sejam os estados “mais negros”.

Há ainda quem combine mais de uma dessas leituras. Nenhuma delas encerra a discussão, e é por isso que digo que pardo é uma identidade em disputa.

Por que me autodeclaro parda e não preta de pele clara?

Me autodeclaro parda porque essa é a autodeclaração que sinto honesta para mim hoje. Existe um caminho legítimo que muitas pessoas seguem: quem tem traços e vivências negras, mesmo com a pele mais clara, se declara preta. Eu tentei, como contei acima, e não durou. O motivo é simples: eu não me sentia confortável com essa autodeclaração. Passei a me sentir desconfortável até quando me perguntavam sobre isso. Hoje não me declaro preta porque não sinto que seja uma autodeclaração honesta para mim.

Isso não quer dizer que eu me coloque perto da branquitude. Minha família por parte de mãe e meus irmãos são pretos, e conviver com eles me dá uma comparação que eu não teria só pelos livros. Vejo de perto, dentro da própria família, como o mundo e o racismo se apresentam de um jeito para eles e de outro para mim. Vejo também que se apresentam de outro jeito para as pessoas brancas. Ter uma família preta não me faz preta aos olhos de quem me lê: no Brasil, o que classifica é o fenótipo, e não quem é a minha família. É o racismo de marca de que falei mais acima. Minha experiência está de fato mais próxima da de uma pessoa preta do que da de uma pessoa branca, mas não é a mesma. É nesse espaço entre as duas que a palavra parda faz sentido para mim.

Há também uma razão que veio com o estudo. A autodeclaração é a base do censo e das políticas públicas, e responder com honestidade melhora a qualidade dos dados sobre desigualdade racial, emprego, educação e saúde. Uma declaração feita para agradar um grupo, ou para evitar uma briga, não ajuda nem a mim nem a quem usa esses dados. Essa é a minha resposta de hoje. Quem chega a outra, com honestidade, não está errado por isso.

Alguém pode negar a autodeclaração racial de outra pessoa?

A autodeclaração é um direito: ninguém pode definir de forma arbitrária a identidade racial de outra pessoa. Como contei acima, na minha vida essa negação veio dos dois lados, e nos dois casos doeu. Entendo o ressentimento de muitas pessoas pardas que passaram pela mesma negação.

Existe, sim, uma situação em que a autodeclaração não é o único critério: a heteroidentificação. Em concursos públicos e processos seletivos com cotas raciais, pode haver procedimentos complementares, porque a política busca alcançar pessoas que são socialmente percebidas como pertencentes aos grupos beneficiados. Segundo o CNJ, as comissões de heteroidentificação avaliam características físicas observáveis, como cabelo, tom de pele, nariz e boca, e não o parentesco com pessoas pretas ou pardas. Esse mecanismo não decide quem você é. Ele avalia se você está apta a uma política específica, que existe por causa do racismo de marca. Essa distinção entre identidade e elegibilidade explica por que as duas coisas coexistem, embora o funcionamento das comissões ainda seja debatido.

Pessoas retintas são responsáveis por negar a autodeclaração parda?

Nas redes e nas conversas, circula com frequência a ideia de que cabe às pessoas retintas validar ou negar a autodeclaração de pessoas pardas. Não falo de ninguém em específico, e sim de um discurso que existe. Ele parte de algo verdadeiro: pessoas retintas vivem o racismo de forma mais direta e têm autoridade sobre essa vivência. O problema é o passo seguinte, o de transformar essa vivência em autoridade sobre a identidade dos outros. Vejo dois problemas nele, um sobre conhecimento e outro sobre poder.

O primeiro: ser retinto não transforma ninguém em “porteiro de Wakanda”. Viver o racismo não é o mesmo que ter estudado a história das categorias raciais, o funcionamento do censo, a unificação de pretos e pardos pelo Movimento Negro Unificado ou o debate sobre a identidade parda. Letramento racial não vem com o tom de pele, para ninguém. Pessoas retintas não formam um bloco com uma única opinião, e tratá-las como se autorizassem ou negassem a minha identidade tira a individualidade delas.

O segundo é sobre poder, e vale mesmo para quem tem muito letramento racial. Dentro do que se entende como racismo estrutural, não dá para colocar pessoas retintas como opressoras de pessoas pardas. Silvio Almeida define o racismo como um processo em que a organização da sociedade, das instituições, da economia e da política distribui vantagens e desvantagens conforme a raça. Não é apenas atitude individual. Uma pessoa preta pode me magoar com uma fala, e isso merece conversa. Mas quem está na ponta mais atingida da estrutura não é quem a sustenta.

Também entendo de onde vem a tensão. Pessoas pretas já foram alvo de racismo por parte de pessoas pardas, e quando veem alguém com fenótipo pardo se declarando preta, esse ressentimento pode pesar. Os dois ressentimentos são compreensíveis. O problema é onde eles acabam. Enquanto brigamos para saber quem é mais oprimido, a branquitude segue com o seu pacto, como descreve Cida Bento, e sem precisar lidar com a questão racial.

Privilégio e passabilidade: duas coisas diferentes

Privilégio e passabilidade aparecem juntos em muita conversa e não querem dizer a mesma coisa: o privilégio é estrutural e estável, e a passabilidade depende do olhar dos outros.

  • Privilégio: vantagem que uma pessoa tem por pertencer a um grupo favorecido pela estrutura social. Ela não depende de como a pessoa é lida a cada momento. O privilégio racial no Brasil é o da branquitude.
  • Passabilidade: ser lida como mais próxima do padrão dominante e, por isso, ser tolerada em mais espaços. Depende do olhar dos outros, do contexto e do momento.

Quanto mais afastada do estereótipo de pessoa negra, mais os espaços te toleram. Essa tolerância não é pertencimento, e ela não é distribuída de forma igual entre pessoas negras. É exatamente isso que o colorismo descreve. Na minha história, a leitura que fizeram de mim mudou quando o meu cabelo mudou, e isso mostra o quanto a tolerância depende do olhar dos outros. O privilégio da branquitude não funciona assim.

Existe um ponto em que a passabilidade se aproxima tanto do que a branquitude tem que a pessoa deixa de viver a discriminação racial do dia a dia. Costa e Schucman discutem esse caso: pessoas lidas como brancas, mas com ancestralidade negra, podem se declarar pardas no IBGE sem viver a discriminação que as cotas raciais procuram enfrentar. Ancestralidade e autodeclaração não são a mesma coisa, e por isso a discussão sobre heteroidentificação existe.

Existe uma resposta certa sobre autodeclaração racial?

Não existe, e acho que essa é a conclusão mais honesta que consigo oferecer. A mesma miscigenação que tornou a realidade racial brasileira tão complexa não elimina o racismo, mas faz com que ele opere de um jeito diferente do que acontece em outros países. Quem procura uma regra que sirva para todo mundo vai encontrar exceções em todas as páginas.

Hoje eu me declaro parda com mais confiança do que antes. Estudei, amadureci e entendi o que essa declaração significa para mim. Isso não quer dizer que eu ache que a minha resposta vale para outra pessoa, nem que eu não possa mudar de opinião daqui a alguns anos. Se o seu caminho foi outro, ele também merece ser ouvido.

O que eu peço é que a conversa saia de quem é mais oprimido e vá para o que a gente pode fazer a partir daqui: entender melhor as categorias, respeitar a autodeclaração de quem responde com honestidade e cobrar dados e políticas que alcancem quem vive o racismo todos os dias.

Referências

Escrito por

Malu Costa

Analista de marketing, freelancer em SEO e GEO, membra do comitê DEI e criadora do malucostadaily.com. Escreve sobre estética, política e vida real sem filtro. Conheça minha história →

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