Nem tudo que parece natural é natural

Existe um momento em que a gente percebe que boa parte do que aprendeu sobre como viver não veio da natureza. Veio de histórias, imagens, palavras e costumes que alguém repetiu tantas vezes que passaram a parecer óbvios. Ser mulher de um jeito específico, esperar um grande amor, montar uma família nos moldes que conhecemos: tudo isso chega para a gente já pronto, como se sempre tivesse sido daquele jeito.

Quem trabalha com comunicação repara nisso com frequência. Nenhum símbolo é neutro. Cada cor, cada palavra e cada cena escolhida para uma campanha carrega um sentido, e esse sentido foi construído por alguém, para alguém, em algum contexto. A semiótica é a área que estuda exatamente isso. Neste texto, explico o que é semiótica e como ela ajuda a entender os assuntos que aparecem aqui no blog: identidade, raça, gênero e tudo o que a sociedade espera de cada um de nós.

O que é semiótica

Semiótica é o estudo dos signos e de como eles produzem sentido. Signo é qualquer coisa que representa outra coisa para alguém: uma palavra, uma imagem, um gesto, uma cor, um objeto, uma roupa.

O linguista suíço Ferdinand de Saussure explicou que todo signo tem duas partes. O significante é a forma que percebemos, como o som ou as letras da palavra “casa”. O significado é a ideia que essa forma desperta na nossa cabeça. O ponto mais importante da teoria dele é que a ligação entre as duas partes é arbitrária. Não existe nenhuma razão natural para a sequência de letras c-a-s-a representar uma moradia. Outras línguas usam outros sons para a mesma ideia, e as pessoas se entendem dentro de cada grupo porque aprenderam a mesma convenção.

O filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce, na sua teoria dos signos, dividiu os signos em ícones, índices e símbolos. O ícone se parece com aquilo que representa, como uma fotografia. O índice tem ligação direta com aquilo que indica, como a fumaça indica que há fogo. O símbolo funciona por convenção, como uma aliança de casamento, que só significa compromisso porque a cultura decidiu que significa.

Já Roland Barthes, no livro Mitologias, mostrou que os signos se acumulam em camadas. Uma imagem tem um sentido direto e também um sentido cultural. Quando esse sentido cultural é repetido muitas vezes, ele deixa de parecer cultural e passa a parecer natural. Barthes chamou isso de mito: a transformação de algo histórico, feito por pessoas em determinado momento, em algo que parece ter existido sempre.

Essa última ideia é a que mais importa para o resto do texto.

Semiótica e a construção do feminino

Simone de Beauvoir escreveu em O Segundo Sexo, em 1949, que ninguém nasce mulher, torna-se mulher. Ela não negava o corpo. O que ela dizia é que o significado social de ser mulher, ou seja, o que se espera de uma mulher, como ela deve se comportar e o que deve desejar, não vem do corpo. Vem da cultura.

A semiótica dá nome ao mecanismo. Desde cedo aprendemos a associar ao feminino uma série de signos: a cor rosa, as bonecas, o cabelo longo, a delicadeza, o cuidado, a paciência, a vaidade. Nenhum desses elementos tem relação natural com ser mulher.

A cor é um exemplo simples. No início do século XX, algumas publicações do comércio de roupas infantis nos Estados Unidos recomendavam rosa para meninos e azul para meninas, porque o rosa era considerado uma cor mais forte. A associação que temos hoje só se fixou algumas décadas depois, como mostra a historiadora Jo Paoletti. O salto alto é outro caso: foi usado por homens da aristocracia europeia nos séculos XVII e XVIII como sinal de status, antes de se tornar um símbolo feminino.

Quem trabalha com publicidade vê esse processo acontecer em escala. Anúncios, novelas, filmes e redes sociais repetem os mesmos signos até que eles pareçam uma descrição de como as mulheres são, quando na verdade são instruções de como se espera que elas sejam.

Isso não significa que ninguém possa gostar de rosa ou de salto alto. Significa que gostar ou não gostar deveria ser uma escolha, e não uma obrigação.

Semiótica e o amor romântico

A ideia de que existe uma pessoa certa para cada um, de que o amor deve vir antes do casamento e de que ele resolve o resto da vida também é um conjunto de signos aprendidos.

O sociólogo Anthony Giddens, em A Transformação da Intimidade, explica que o amor romântico como o entendemos hoje se consolidou a partir do século XVIII, junto com o romance na literatura e com mudanças na organização da vida familiar. A historiadora Stephanie Coontz, em Marriage, a History, mostra que durante a maior parte da história o casamento foi, antes de tudo, um acordo econômico e político entre famílias. Casar por amor como regra é uma ideia recente, com cerca de dois séculos na sociedade ocidental.

Depois que a ideia se estabeleceu, o modelo foi reforçado por contos de fadas, filmes, músicas e publicidade. O final feliz é quase sempre um casamento. Quem ama de verdade se sacrifica. O amor é apresentado como destino, e não como algo que duas pessoas constroem. São signos que aprendemos antes de ter qualquer experiência com relacionamento, e por isso chegam com cara de verdade.

Esse modelo costuma pesar mais sobre as mulheres, que muitas vezes aprendem cedo que ser escolhida é parte importante de uma vida bem-sucedida. Uma pergunta útil para qualquer pessoa é: quanto do que eu espero de um relacionamento é desejo meu e quanto é modelo que me ensinaram?

Semiótica e a instituição familiar

A família nuclear, formada por pai, mãe e filhos morando juntos, é apresentada com frequência como a forma natural de organizar a vida. A história e a antropologia mostram outra coisa. Em diferentes épocas e culturas, as pessoas se organizaram em famílias extensas, em grupos de parentesco, com criação compartilhada dos filhos e com arranjos bem diferentes do que hoje chamamos de tradicional.

O historiador Philippe Ariès, em História Social da Criança e da Família, defendeu que o sentimento moderno de família, centrado na intimidade e no cuidado com as crianças, se formou na Europa entre os séculos XVII e XVIII. Alguns pontos da tese dele são debatidos por outros historiadores, mas a ideia central de que a família tem história continua aceita. Stephanie Coontz, em The Way We Never Were, também mostra que o modelo de família dos anos 1950 nos Estados Unidos, tantas vezes citado como tradição, foi uma exceção histórica e não a regra.

Do ponto de vista semiótico, a família também é um conjunto de signos: a mesa posta, a foto no porta-retratos, o sobrenome, a aliança, expressões como “família tradicional” e “chefe de família”. Esses signos tornam o modelo reconhecível, e a repetição faz com que ele pareça o único possível. Isso ajuda a explicar por que quem vive de outro jeito, seja uma mãe solo, um casal sem filhos, uma família formada por amigos ou uma pessoa que escolhe morar sozinha, muitas vezes ouve que está fora do normal.

Reconhecer que o modelo é construído não significa dizer que ele é ruim. Significa que ele é uma opção entre várias.

Quando percebemos o mundo simbólico

Quando a gente entende que existe um mundo simbólico, muda a forma de olhar. Um anúncio deixa de ser só um anúncio e passa a mostrar quem ele imagina que somos. Expressões como “mulher de verdade” ou “família de bem” passam a ser vistas como definições criadas por alguém, com algum objetivo.

A primeira reação costuma ser de incômodo, porque muita coisa que parecia natural deixa de ser. A segunda costuma ser de alívio. Se esses modelos foram inventados por pessoas, outras pessoas podem questioná-los, reformulá-los e até recusá-los. Uma lei da natureza não muda porque a gente discorda dela. Uma convenção muda, e já mudou várias vezes. Mulheres passaram a votar e a trabalhar fora, o casamento passou a ser decidido por quem se casa, e o divórcio, que só foi permitido em lei no Brasil em 1977, hoje é uma possibilidade comum. Cada uma dessas mudanças começou quando alguém questionou o que era apresentado como natural.

O mesmo vale para a raça. Não há base biológica que divida a espécie humana em raças, mas há uma longa história social que deu significado às diferenças de aparência. As categorias que usamos, como branca, parda e preta, são classificações criadas pela sociedade e mudam de um país e de uma época para outra. Escrevi sobre isso em Colorismo no Brasil: por que me autodeclaro parda, onde explico por que me autodeclaro parda e como essas categorias funcionam no Brasil.

Também é preciso cuidado com o outro extremo. Dizer que os signos são construídos não quer dizer que sejam falsos nem que não tenham efeito real. Eles organizam leis, empregos, relações e a forma como as pessoas são tratadas, e por isso pesam. O que muda é que deixamos de tratá-los como destino.

“Entender semiótica também não obriga ninguém a abandonar o que aprendeu. Obriga, no máximo, a saber que está escolhendo.”

Escolher com consciência

Escrevo sobre estética, política e vida real neste blog porque acredito que essas três áreas estão ligadas pelos mesmos símbolos. O que consideramos bonito, o que consideramos justo e o que consideramos uma vida normal foram ensinados por meio de imagens e palavras, e podem ser examinados de novo.

Não tenho uma resposta pronta sobre o que cada pessoa deve manter ou deixar de lado. Ser mulher, amar e formar uma família podem continuar sendo partes importantes da vida de muita gente. A diferença está em escolher com consciência, sabendo que existem outras formas possíveis e que nenhuma delas é obrigação imposta pela natureza.

Se este texto fez você olhar para algo do seu dia a dia de outra forma, fica uma pergunta para levar: quem decidiu que era assim, e por que eu aceitei?

Referências

  • ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. (1960)
  • BARTHES, Roland. Mitologias. (1957)
  • BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. (1949)
  • COONTZ, Stephanie. Marriage, a History. (2005)
  • COONTZ, Stephanie. The Way We Never Were. (1992)
  • GIDDENS, Anthony. A Transformação da Intimidade. (1992)
  • PAOLETTI, Jo B. Pink and Blue: Telling the Boys from the Girls in America. (2012)
  • PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. (coleção de escritos)
  • SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. (1916)

Escrito por

Malu Costa

Analista de marketing, freelancer em SEO e GEO, membra do comitê DEI e criadora do malucostadaily.com. Escreve sobre estética, política e vida real sem filtro. Conheça minha história →

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